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Walter Salles
Alguns diretores olham para o mundo de forma tão original e específica que, logo nos primeiros planos de seus filmes, é possível perceber quem está por trás da câmera.
O mestre Eduardo Coutinho é um deles. Alguns jovens cineastas também têm essa rara qualidade. Beto Brant na ficção, por exemplo. Ou Eryk Rocha, no documentário.
Logo nos primeiros planos de Pachamama, viagem documental de Eryk através do continente latino-americano que estreou na última sexta-feira, somos convidados à participar de uma jornada tão sensorial quanto aquela vivida em Rocha que Voa. Nesse mergulho em busca de uma América Latina em transformação, Eryk nos conduz na direção de um continente indígena, onde a herança incaica se revela bem mais próxima de nós do que poderia parecer à distância.
O filme é o resultado de uma viagem feita a partir do Brasil por um grupo de pesquisadores que partem em dois jipes para a Bolivia e o Peru - a tríplice fronteira. Os companheiros de viagem não são nunca enfocados - aqui, só importa quem vive na(s) terra(s) que a câmera de Eryk desvenda. Encontros na estrada, ou à margem dela.
Caminhos, campos, montanhas. Em Pachamama, o mergulho é para dentro do coração de um continente. Cuzco, no Peru, El Alto na Bolívia, algum lugar perdido entre dois vilarejos andinos. "Agosto é o mês em que não deixamos adoecer a terra", nos diz uma india Aymara. Toda uma cosmogonia, uma visão inusitada do tempo e do espaço, começa a tomar forma.
Nessa deriva poética, a câmera interessa-se principalmente pelo humano, mas também pelo político. Escuta-se Evo Morales com a mesma atenção dada àqueles que, na provínvia de tendência separatista que é Santa Cruz, criticam o atual governo boliviano por "não escutar nossos opositores" e "não propor um processo democrático real".
É essa coragem de não fugir ao debate, aliada à uma utilização tão criativa do som e da imagem quanto a dos documentários anteriores de Eryk Rocha, que faz de Pachamama um filme que merece ser descoberto. Um filme para aqueles que querem saber mais notícias sobre a América Latina do que aquelas que chegam a nós pelas TVs. A de um continente em transe.
Paradoxalmente, é o Brasil que pode ser visto refletido à distância. "Quanto mais nos distanciamos do ponto de partida, mais aprendemos sobre nós mesmos", disse uma vez Wim Wenders. "Pachamama" permite tecer a relação entre o Brasil e países que nós parecem tão distantes, mas na verdade não o são. Permite também perceber o quanto o documentário brasileiro é hoje rico e diverso, passos à frente da nossa ficção.

