Pachamama

Depois da viagem

Pachamama, um filme de Eryk Rocha

O cinema é a terra

Eryk Rocha

Em janeiro de 2007, viajei com um grupo de brasileiros em dois jipes partindo do Rio de Janeiro até a tríplice fronteira amazônica em direção ao Peru e à Bolívia. Era um grupo formado por três historiadores, um cientista político e dois engenheiros mecânicos que cuidavam dos veículos e dos mapas. Começa uma odisséia de trinta dias pela realidade amazônica e andina. Do olhar desse viajante nasceu o filme Pachamama. A Viagem me despertou inúmeras questões:
Como fazer um filme sobre o Brasil indo ao encontro da realidade vivida no Peru e na Bolívia? Que parte do continente é essa? De onde viemos?  O que é ser sul-americano? Como nossos mitos e raízes podem estimular a arte e a política?

Pachamama significa a mãe-terra. É a deusa agrária dos camponeses. Remete para a fertilidade da terra.

Nunca tive a certeza de que o material que estava filmando se transformaria em filme. Foi a primeira vez que assumi na íntegra a câmera de um filme meu. “Pachamama” traz essa experiência do corpo, a câmera está integrada no meu corpo, na minha respiração, na pulsão dos meus órgãos, a câmera é um prolongamento do corpo. Pachamama é também um filme sobre a solidão. O filme foi sendo descoberto a cada dia a partir dos múltiplos encontros e acasos. O homem e a câmera. O homem e a terra. O homem em movimento. Em movimento pelo continente sangrando, em ebulição, em erupção vulcânica; Pachamama é um filme do interior, de dentro da terra, de entre as pedras, de entre as terras, de dentro das plantas, que vai ao interior das veias do corpo e das veias abertas da América Latina.

Uma das coisas que mais me impressionou da travessia foi perceber que hoje a América do Sul está no “olho do furacão”. Vive um momento particular de um fazer a política desde a terra, desde uma experiência ancestral.  Não é uma experiência política tradicional de esquerda, comunista ou socialista, mas uma experiência que vem de uma reflexão cultural, comunitária, de diferentes movimentos sociais nativos, dos povos originários. Na Bolívia uma grande aliança entre os movimentos indígenas camponeses com um partido institucional conduziu Evo Morales ao poder. 

Em Pachamama isto me marcou muito: entender como a terra está fertilizando a política. Os homens que reivindicam a terra e as suas riquezas. Mas não reivindicam porque ela lhes "pertence" e sim porque, antes, eles é que "pertencem" à terra - e é essa relação de amor que reinventa a política e projeta outros paradigmas de democracia. A ancestralidade despertando um novo olhar. Isso é um fenômeno novo, original. E também pode ser um grande estímulo para pensar o Brasil, acho muito importante que busquemos nossas matrizes, nossas fontes, novas terras para poder pensar nosso país. Só assim abrimos as veredas da reinvenção.

É contundente perceber no Peru e na Bolívia a coexistência dos tempos, os paradoxos do tempo, passado e presente coexistindo ali naquele momento nos rostos dos herdeiros da civilização Inca. Jerzy Grotoviski, o diretor e teórico do teatro polonês, fala disso: ou nós chegamos forte no nosso tempo através da tradição, ou nós roubamos coisas do mundo. Mas para roubar tem que ser muito bem roubado. Então vamos roubar fontes e forças... Ele diz: “não me interessa o novo, me interessa o que foi esquecido. Me interessa um cinema-documentário sincrético que desfronteirize essa separação do real e do imaginário, do sonho e da realidade, tudo está amalgamado dentro de nós, não há limite entre essas forças, essa divisão é filha do racionalismo europeu, vem de uma idéia monoteísta. Vem de uma dualista que separa o corpo e mente. Para os indígenas, a fantasia é a mais viva realidade, o homem está integrado à Natureza.

O meu deslocamento me fez ver redescobrir o Brasil e suas possibilidades, me fez reconhecer suas diferenças e suas multi-identidades, me fez me ver como cidadão e como artista que busca aprender com o mundo. Apesar da ditadura de um certo paradigma de mercado que reina e massacra, hoje a tecnologia aliada com a imaginação, pode desmistificar o mito e o fetiche do cinema. Filmar hoje, mais que nunca, é como tocar violino, pintar ou escrever... respirar... Em Pachamama, o destino me levou, o acaso me levou. Destino e acaso não são antagônicos, pelo contrário. Fui arrastado pela terra...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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