Pachamama

La paz e El alto

Pachamama, um filme de Eryk Rocha

Daniel Santiago Chaves/ Pesquisador do Laboratório de Estudos do Tempo Presente, UFRJ

A cidadela de Tihuanaco, monumento ainda vivo da história do povo andino, é um espaço integral da culturalidade e da experiência política milenar boliviana, mas também pode ser um ponto de partida epicêntrico para entender melhor o que é o século XXI no coração da cordilheira. Local autóctone ou ambiente privilegiado para a posse cultural do presidente Morales, dois dias antes da posse oficial? Melhor dirá quem entender a simultaneidade.

Enquanto testemunho narrado, capaz de produzir ao mesmo tempo simbolismo e novas experimentações sobre uma memória viva - sem ser, portanto, um tempo-espaço passado - El Alto e La Paz, cidades históricas da fundação do que foi a Bolívia moderna e do que é a Bolívia contemporânea, têm uma relação siamesa estranha. São plataformas para uma nova concepção de sociedade. Melhor dizendo, o Socialismo do século XXI na sua expressão Pachamama.

O Socialismo Pachamama está completamente registrado no subconsciente coletivo. Mais ainda, ele é conciso, coerente, vital. É um plano político milenar. É uma revolução, não só em termos analíticos historiográficos, como é uma síntese de um largo processo histórico. Claro, como toda revolução, seu canto vai de encontro à maré conservadora. Vivamos e vejamos...

O trajeto pelo Prado, uma espécie de boulevard muito comum em cidades de ascendência hispânica, e as conversas com a classe média de La Paz, decadente e assustada, trouxeram-nos a súbita revelação da grande manifestação pela renúncia do governador José Luís Paredes, o "Pepe Lucho". Uma marcha de grande densidade atravessou o nosso caminho, no Prado, com três mil dirigentes camponeses, os Ponchos Rojos. E atrás dela fomos nós... O fogo revolucionário de El Alto - literalmente! – traduz-se em um excitante choque pessoal, emocional e principalmente político.

El Alto é a soma das contradições políticas da Bolívia contemporânea: familiar, fechada, comercial, pobre, irrascível senhora de si, mãe da plurinacionalidade renovada, feita pelas próprias mãos e abandonada pelos governos liberais. Surpreendentemente, é da paupérrima favela de La Paz, fundada há quase 30 anos atrás, que se refaz o sentido de força da colaboração social. É de lá, tão pobre, que veio a mais avançada das soluções políticas para um país tido como inviável.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pachamama: La Paz

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