
Daniel Santiago Chaves/ Pesquisador do Laboratório de Estudos do Tempo Presente, UFRJ
Raia o dia em Potosí, cidade do mais bonito por-do-sol até agora contemplado em nossa viagem.
Mas, contraditoriamente, a cidade de prata é espelho de pobreza e decadência econômica, mesmo com o passado tão glorioso. Pela arquitetura em estilo colonial, reflete o passado absolutamente próspero e o presente desastrosamente decadente.
No Cerro Rico, defronta-se uma montanha magnética - mas não pela qualidade dos seus metais. Essa histórica formação geológica, que de longe parece o que Galeano descreve como "a miséria vermelha", de perto é muito mais. O formigueiro de pobreza, tosse e morte tem túneis internos de até 500 metros, com histórias de vidas invisíveis, perdidas, esquecidas junto com os tempos de glória da cidade.
A vida dos mineiros, tão particulares mas tão parecidas entre si, é na verdade vida e lugar que não se separam: entre eles e entre o Cerro. Desde a infância, o primeiro emprego, até o sonho de chegar a cursar faculdade, passando pela morte do pai, tudo se enrosca nos túneis do inferno de Cerro Rico. Os olhos ficam turvos de poeira e de tristeza.
O êxtase de sair da montanha vem acompanhado de muitas confusões. Se sair de Cerro Rico uma vez é um alívio, entrar no Cerro todo dia tem o sabor provavelmente oposto. Guarda-se em silêncio a experiência retirada, ainda que breve, do convívio com aquelas pessoas. E a chegada traz a delícia do pôr-do-sol flamejante de Potosí, uma das cidades mais altas da América do Sul. Claro, falta-nos ar, mas sobram observações advindas dos balcões, dos muros, da pracinha, das vielas, dos paralelepípedos e das pessoas.
Em Potosí a plasticidade do dia-a-dia encobre rusticamente a história de contrastes entre riqueza e pobreza, alegria e desagrado, do passado e do presente respectivamente.


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