
Daniel Santiago Chaves/ Pesquisador do Laboratório de Estudos do Tempo Presente, UFRJ
Conhecer Santa Cruz foi essencial para tentar compreender o quebra-cabeça político do continente. As nuances do processo de integração por certo perpassam essa próspera região. Em um universo tão instável e tão revoltoso, uma região como essa, peculiar pelo seu senso progressista e pela originalidade de seu espaço de convivência, é fundamental para a construção de um cenário sustentável.
Nada mal. As continuidades e descontinuidades se impõem como algo que não se pode separar nem nas vivências, nem tampouco na construção do futuro: uma grande lição.
Esse lugar esquecido pelas autoridades da Bolívia antiga, da capital La Paz, torna-se um oceano de desigualdades e pobreza. Brota aqui a falsa retórica da elite crucenha depois dos quatro anillos da cidade projetada. Analisando com cuidado a realidade de Plan 3000, subúrbio do subúrbio, pode-se muito rapidamente perceber que as crises de representação política representam muito mais do que as questões macro observadas em um primeiro plano. Se o Estado boliviano não se conectou a Santa Cruz e fomentou radicalismos autonomistas, por sua vez esta não abraça a sua própria margem e deixa, novamente, outro subúrbio com vísceras à mostra: o Plan 3000.
No final do dia, na despedida do encanto, repara-se a silenciosa, temerosa e sedutora manifestação constante de civilidade, de etnia padrão, de flâmulas, cores e preconceitos. De certa sensação de nobreza. Uma estética linda e fascinante, mas que nos remete a um terrível passado. Fica o doce e o amargo, a recordação do fascínio e da descoberta de Santa Cruz de la Sierra.


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